
A chef Marlene Vieira, de 45 anos, entrou para a história da gastronomia nacional ao conquistar, no final de fevereiro, a sua primeira estrela Michelin com o restaurante Marlene, em Lisboa. Tornou-se assim a primeira mulher portuguesa a receber esta distinção em 30 anos, marcando uma viragem no panorama da alta cozinha em Portugal. “O sonho comanda a vida e este é um sonho tornado realidade”, afirmou após o anúncio. O prémio é visto como o reconhecimento de uma carreira construída com esforço, criatividade e resiliência.
Natural da Maia, Marlene começou a trabalhar em restauração aos 12 anos, ainda durante as férias escolares. Aos 16, ingressou na Escola de Hotelaria de Santa Maria da Feira e, desde então, percorreu todos os caminhos dentro da cozinha profissional. O sonho deu seguramente muito trabalho. “É um prémio de carreira. Entendo-o como isso, porque leva o nosso trabalho longe, abre portas e sempre dediquei a minha vida à profissão, tentando criar coisas novas, atualizando o receituário e acompanhando outras áreas que estão em constante evolução. A cozinha da avó é maravilhosa, mas foi feita por ela – é preciso dar liberdade às novas gerações para criarem também. Tentei fazer isso com o meu trabalho e o Guia Michelin reconheceu-o.”

A sua primeira estrela é também, e segundo a própria, uma conquista com “grande responsabilidade” e um farol para outros profissionais. “Ganhar este prémio é como acenderem um foco por cima de nós. Não me estou a queixar, mas há uma responsabilidade grande. Traçar ou ajudar a traçar o caminho para outros é uma grande honra. Valeu todas as lutas, todos os confrontos, todas os desafios. É muito bom ser reconhecida no trabalho que faço e que, muitas vezes, me leva a hesitar e a perguntar porque estou a fazer isto, para quê e para quem.”
Agora juntou a esta distinção uma outra. Foi considerada uma das 50 Mulheres Mais Influentes de Portugal, pela Executiva, reconhecimento que valoriza não só o seu percurso profissional mas também o seu papel como líder num setor tradicionalmente masculino. “A cozinha profissional ainda é marcada por muito preconceito. Não há tantas oportunidades para mulheres. Somos muitas vezes criticadas quando lideramos”, disse.
Fotos: José Oliveira e Luís Coelho