Conhecida pelas suas ligações glamorosas e sucessivos romances com os homens mais poderosos do mundo, Pamela Harriman (1920-1997) foi muito mais do que uma socialite. Entre a sedução e a estratégia política, a aristocrata britânica tornou-se uma das figuras mais influentes da história recente, com um papel determinante em momentos-chave, como a Guerra da Bósnia.
A história de Pamela Beryl Digby Churchill Hayward Harriman começa como a de muitas aristocratas britânicas da sua época: filha de um barão sem posses, foi educada para “casar bem”. No entanto, o seu percurso transformou-a numa força da natureza que tocou as vidas de quase todos os nomes que definiram a política, a cultura e a moda do século XX — de Winston Churchill (1874-1965) a Nelson Mandela (1918-2013), passando por Christian Dior (1905-1957) e Frank Sinatra (95-1998).
A ‘arma secreta’ em tempo de guerra
O caminho para o poder começou cedo e de forma pragmática. Em 1939, aos 19 anos, Pamela casou com Randolph Churchill (1911-1968), o único filho do lendário Primeiro-Ministro britânico. Num casamento marcado pela urgência da guerra, o sogro viu nela algo mais do que uma nora: viu uma aliada. Durante a II Guerra Mundial, o próprio Winston Churchill considerava-a a sua ‘arma secreta’, utilizando a capacidade de sedução e o charme de Pamela para atrair autoridades americanas à causa britânica contra o nazismo.
Paris, Nova Iorque e a arte de gerir o poder
Após o divórcio e o fim do conflito, Pamela estabeleceu-se em Paris, onde a sua vida social se tornou lendária. Nenhuma festa na capital francesa ou em Nova Iorque estava completa sem a sua presença. Amiga próxima de ícones como Wallis Simpson (1896-1986), e figura central nos círculos de alta-costura, Pamela dominou a arte da sedução e da diplomacia privada.
Apesar de a sua vida ter sido marcada por romances mediáticos com figuras como Gianni Agnelli (1921-2003), o herdeiro da Fiat, e o banqueiro Élie de Rothschild (1917-2007), o seu verdadeiro legado começou a consolidar-se em Washington. Já casada com o produtor Leland Hayward (1902-1971), Pamela transformou-se numa estratega política implacável.

A estratega nas sombras
Foi com o Partido Democrata que Pamela Harriman encontrou o palco ideal para a sua ambição. Graças à sua fortuna e ao seu instinto infalível para identificar talentos, financiou e promoveu figuras que viriam a mudar o curso da história americana. Joe Biden (83) e Bill Clinton (79) foram alguns dos nomes que beneficiaram do seu apoio. Em gratidão pela sua dedicação, Clinton nomeou-a embaixadora dos Estados Unidos em França — um reconhecimento da sua estatura política.
Um dos seus feitos mais discretos, mas de maior alcance, ocorreu durante a Guerra da Bósnia. Pamela atuou como interlocutora secreta, mas histórica, facilitando o diálogo entre Jacques Chirac (1932-2019) e Bill Clinton, provando que a sua influência transcendia as páginas das revistas de sociedade.
O legado para lá da aparência
Embora as suas aventuras amorosas tenham, durante décadas, ofuscado a sua capacidade intelectual e política, a historiadora Sonia Purnell revela agora em “A Fazedora de Reis” a verdadeira dimensão de Pamela Harriman. Foi uma mulher que, num mundo dominado por homens, compreendeu como ninguém o funcionamento do poder — como conquistá-lo, como mantê-lo e como usá-lo para servir causas que considerava justas. A Dom Quixote edita a obra na próxima terça-feira, 14 de Julho.
