Foi na véspera de completar 47 anos que a CARAS reencontrou o ator
Ricardo Carriço. A braços com o projeto social do Espaço-Teatro Confluência, em Cascais, o ator abriu o coração e fez o balanço sobre a vida profissional e pessoal.
– O Ricardo já trabalhou em diversas áreas, mas sente-se um carinho especial quando fala neste espaço. Este é o projeto da sua vida?
Ricardo Carriço – É um bocadinho o projeto da minha vida, é um facto. Foi um projeto pelo qual me apaixonei, estou aqui por amor. Visto a camisola! Todas as pessoas trabalham em regime de voluntariado, é muito bonito. Trabalhamos para que, no futuro, este seja um espaço aberto a todos, que possa ser transversal e onde se abarquem vários tipos de expressões artísticas: desde a música e da pintura ao teatro e à dança.
– O seu trabalho aqui passa muito pela encenação. Gosta dessa vertente?
– Eu gosto da relação que construo enquanto encenador. Acho que consigo estabelecer laços. O nosso livro de estudos são os outros e isso é muito engraçado. Perceber o caminho que uma pessoa tem que fazer para chegar a um ponto e ajudar essa pessoa a chegar até lá é verdadeiramente fascinante.
– Já encontrou aqui verdadeiros talentos? Gente que poderá vingar no meio artístico nacional?
– Temos tido aqui grandes surpresas! O
Ruy de Carvalho, presidente da mesa da Confluência, disse um dia que estava estupefacto. Há umas quantas pessoas daqui que eu sinto que, se um dia tiverem a oportunidade certa, vão brilhar.
– A sua mais recente participação na televisão foi na novela da SIC,
Laços de Sangue. Como correu esse projeto?
– Eu fico muito feliz a fazer televisão. Fiquei muito contente com o convite para este trabalho. A equipa que a produtora SP escolheu em parceria com a SIC era ótima. O que encontrei foram pessoas com o mesmo espírito e a ‘vestir a camisola’. Todos na mesma direção e disponíveis, e isso é muito bom.
– O que sente ao ver talentos como, por exemplo, o da jovem atriz Joana Santos?
– Fico feliz por ver que em Portugal há gente com muito talento. Fico pouco feliz é quando vejo que há gente que tem talento mas que depois fica cheia dela própria. Obviamente que não estou a falar da Joana! Quando um ator quer crescer deve ser humilde, acima de tudo, e generoso naquilo que faz. Eu acho que há muito pouca gente com essas características. Ninguém sabe tudo, e muito menos um ator.
– Gostou de encarnar a personagem do cozinheiro Jaime?
– No início, o Jaime Vilar pareceu-me muito igual a mim, sobretudo porque gosto mesmo muito de cozinhar! Mas depois arranjei um ponto de distância do personagem noutros comportamentos. Sermos tão parecidos seria muito assustador [risos]!
– E ao nível pessoal? O que sente ao chegar perto dos 50?
– Acho que estou no caminho certo. Aprendi imenso e quero continuar a aprender mais. Chegar aos 47 anos ou perto dos 50 e dizer que já fiz tudo, não! Não sou capaz de ficar quieto, não é meu feitio, não sou de ficar encostado. Sou um
workaholic. Quando um projeto acaba, tenho necessidade de arranjar outro logo de seguida. E a Confluência dá-me isso. Posso dizer que estou a trabalhar na área que me preenche e que me realiza. É muito bom aos 47 anos dizer que estou a fazer aquilo que eu gosto verdadeiramente.
– O Ricardo já foi casado. É uma experiência que não pretende repetir?
– As experiências que as pessoas têm acontecem quando têm que acontecer. Não faço planos, deixo que as coisas rolem. Eu gosto de ver o que é que a vida tem reservado para mim [risos]! Acho que o casamento vem da necessidade que temos de partilhar a nossa vida com alguém, e eu neste momento partilho a minha vida diariamente com 30 pessoas, portanto, acho que não tenho tempo para ter mais ninguém na minha vida, não faz sentido. Não tenho tempo para constituir família. Já a tenho, é esta. As famílias não se escolhem, encontram-se. Eu encontrei a minha e preenche-me na totalidade.
– Tem aqui muitos amigos…
– Tenho muitos e bons amigos. Eles são meus irmãos, meus alunos e meus professores. São meus filhos.
– Acha que os seus alunos o veem como um mestre?
– Às vezes os meus alunos pensam: "Ah, é o Ricardo Carriço", mas depois veem-me em cima de um escadote a pendurar uma cortina ou agarrar num balde com uma esfregona e limpar o chão e percebem imediatamente que sou uma pessoa normal.
– Mas nunca teve vontade de experimentar a paternidade?
– Sim, já tive vontade de ser pai, mas hoje em dia sinto-me completo. Acho que há coisas que não se procuram na vida e quanto mais as procuramos, pior. Deixo que a vida mostre aquilo que tem reservado para mim.
– É feliz?
– Sinto-me feliz, muito!
– Que projetos profissionais tem na manga?
– Já fui convidado pela produtora SP para um novo projeto na área da ficção televisiva, mas não estou autorizado a falar muito mais, terá que esperar! [risos]
E aqui na Confluência voltaremos brevemente a repor a peça
O Amor Intemporal.