Nasceu em França, filha de pais portugueses. Sente-se francesa, mas com um “fortíssima componente portuguesa” e tenta transmitir ao filho, Vicente, de cinco anos, a cultura, língua e tradições lusas. Foi por todas estas razões, e por conhecer bem a comunidade portuguesa emigrante em Paris, que Jacqueline Corado da Silva quis fazer parte do filme A Gaiola Dourada, de Ruben Alves. Foi essa participação que serviu de ponto de partida para uma conversa com a atriz durante uma tarde passada no Chiado.
– Como foi a experiência de participar no filme A Gaiola Dourada?
Jacqueline Corado – Foi fabulosa a nível artístico e humano. Quando soube deste projeto, uma comédia sobre a minha comunidade, fiquei histérica e quis logo participar nele. Fiquei extasiada quando soube que tinha ficado com o papel da Lurdes e apaixonada e comovida quando li o guião. Percebi que o Ruben sabia retratar a nossa comunidade com muito carinho, amor, subtileza e uma profundeza que ia muito mais além do humor, sem querer dar lições. Também percebi que ele aceitava o lado francês e o português sem amargura, que havia uma harmonia e isso é muito bom.
– Identifica-se com esta história, portanto.
– Muito! Quando acabaram as filmagens agradeci ao Ruben, enquanto atriz e membro desta comunidade, pois com este filme pude homenagear os meus pais. O filme é uma homenagem às pessoas que deixaram o seu país, trabalharam a vida toda e se sacrificaram pelos filhos. Fico-lhe muito grata por isso.
– Vem muitas vezes a Portugal?
– Sim, tenho muita família cá, e tento estar cá nas férias e nos momentos importantes. Para mim, a família é o mais importante e acho que isso é algo muito português e que me foi transmitido pelos meus pais. É importante que o meu filho venha cá e tenha fortes elos, porque eu quero que ele fale português, se sinta português e se interesse pela cultura e cabe-me a mim transmitir-lhe isso.
– Tenta passar a cultura portuguesa ao seu filho, então.
– Fui obrigada a definir as minhas próprias regras entre as fortes tradições que os meus pais traziam da aldeia e a sociedade de Paris pós-68. Uma vez que isso é feito e que assumimos que a dupla cultura não é um problema, mas uma riqueza, isso permite aceitar as duas e ter mais ângulos de visão. É muito importante transmitir essa riqueza e cultura ao meu filho.
– Que tipo de mãe é?
– Não sou muito mãe-galinha. Sou exigente em algumas coisas e permissiva noutras. Por exemplo, deixo-o trepar para os móveis, mas sou imperdoável nas boas maneiras. Há regras de boa educação e princípios básicos que são muito importantes para mim.
– Que valores lhe quer transmitir?
– O respeito pelos outros e pela própria liberdade, que assuma o que é e os seus gostos. Mas o meu filho também me está a ensinar porque eu nunca pensara ter filhos. Estou muito grata ao pai do meu filho por ter insistido para termos um. Estamos a descobrir aos poucos como ser mãe e filho, mas educo-o também com muito respeito e ele é um menino sensível e com uma grande inteligência.
– Como é a relação com o pai do Vicente? Refere-se a ele como o pai do seu filho e não como seu companheiro…
– De facto, o Jean já não é o meu companheiro de vida. Foi uma história muito forte e foi com ele que quis ter um filho, pois sabia que seria um bom pai. Respeitamo-nos muito, gosto muito dele, trabalhamos e fazemos muitos programas juntos e queremos que o nosso filho perceba que nos respeitamos e que há muito amor à volta dele. É importante proteger o nosso filho e sinto que é uma falha não termos mantido a família. Mas vamos tentando e o Vicente está bem e feliz.
– Como está a nível amoroso?
– A separação aconteceu há um ano e meio e vemo-nos quase todos os dias, por isso, ainda é complicado. Espero apaixonar-me novamente um dia.
– Por que decidiu ser atriz?
– Os meus pais puseram-me na escola portuguesa aos cinco anos e o professor de português António Cravo tinha uma companhia de teatro, onde comecei. Eu venho de uma família latina, barulhenta e agitada e percebi que no palco as pessoas me ouviam e aplaudiam. E eu estava a falar português! Descobri uma paixão absoluta, que era o teatro, através de uma língua que era o português, o que me deu mais vontade de descobrir a cultura dos meus pais. A partir daí fiz sempre teatro amador e quem me conhecia achava que eu ia seguir essa carreira. Por isso, toda a gente ficou admirada quando decidi fazer Política Económica na Sorbonne, a Escola Superior de Comércio de Paris em Finanças, um MBA… Depois de ter vários cursos e diplomas, decidi voltar à minha paixão e apercebi-me de que os cursos que tirei eram a melhor maneira de agradecer aos meus pais todos os esforços que tinham feito por mim e pela minha irmã. Porque o maior desgosto da minha mãe, que é uma mulher brilhante e inteligente, era só ter a quarta classe.
– Não deve ter sido fácil regressar ao teatro depois de toda a formação em áreas completamente diferentes…
– Não foi fácil, porque recusei trabalhos de 5 mil euros por mês para ganhar 200! E, aos 24 anos, passar do teatro amador para o profissional foi difícil, porque tive de recomeçar do zero. Passei muitas noites a chorar, mas no dia seguinte levantava-me e sabia que era mesmo o que queria fazer, era uma paixão. Mas espero que o meu filho não queira ser ator!
– E se quiser, tem o seu apoio?
– Sim, claro, mas é uma profissão difícil. Pedem-nos para guardar uma hipersensibilidade, para mostrarmos as emoções quando se diz “ação”. Temos de fazer rir quando temos mágoas por dentro. E além dessa sensibilidade, ao mesmo tempo temos de ter uma resistência absoluta quando vamos fazer castings e somos rejeitados 10 ou 15 vezes porque somos gordas demais, magras demais, novas, velhas, altas, baixas… Temos de continuar a sorrir e não deixar a amargura ganhar. E esse equilíbrio é complexo. Por isso, as meninas que querem ser atrizes porque sonham com vestidos glamorosos e capas de revista têm de ter cuidado: não é tudo cor-de-rosa nesta área!
Jacqueline Corado da Silva conta-nos a história da sua vida
A participação em ‘A Gaiola Dourada’ foi o ponto de partida para uma conversa com a atriz luso-francesa.