
Durante alguns anos, uma das maiores preocupações de Virgílio Castelo era não conseguir acompanhar o crescimento das filhas mais novas, Violeta e Sancha, que nasceram da sua relação com Maria Lucena. Hoje com 18 e 14 anos, respetivamente, as duas jovens, assim como a filha mais velha, Tâmara, de 38, têm gradualmente deixado de ser motivo de ansiedade em relação ao futuro. Isso mesmo nos confirmou o ator e encenador, que completou recentemente 70 anos. Uma data assinalada com uma festa-surpresa organizada pela mulher, tal como revelou à CARAS durante uma conversa que antecedeu a apresentação de Cartas de Amor, uma peça encenada por Paulo Sousa Costa que protagonizou ao lado da jornalista Maria Elisa Domingues e que esteve em cena no Auditório do Taguspark, em Oeiras.
– Acaba de completar 70 anos. Esta data especial foi assinalada à altura?
Virgílio Castelo – Sim. Normalmente não assinalo os meus aniversários, mas a Maria preparou-me uma festa, da qual eu não estava nada à espera, e arrastou-me para o Lux, onde se reuniu um grupo imenso de amigos que alinharam com ela, e foi muito bom. Foi bonito e comovente reencontrar pessoas com quem não estamos tantas vezes como gostaríamos.
– Nestas ocasiões aproveita para fazer balanços ou planos?
– Fazer balanços nunca fez parte da minha ideia. Eu não vivo, de todo, no passado, e vivo muito pouco no futuro. Terei vivido mais no futuro quando tive que prepará-lo em função das minhas filhas. Hoje em dia, a preocupação com o futuro é muito diferente do que era quando elas nasceram. Tirando essas, do lado prático da existência, não me preocupo muito com o que é que vou fazer ou o que é que me vai acontecer. Sou um tipo que vive muito no presente. O que está para trás já foi e o que está para a frente não sabemos.
“A ideia do romantismo é muito associada a alguma fantasia do impossível, mas, para mim, romantismo é tudo o que não conheço.”

– Considera-se uma pessoa romântica?
– Sim, sou. Mas sou um romântico talvez no sentido mais tradicional do termo. Acho que a ideia do romantismo é muito associada a alguma fantasia do impossível, mas para mim o romantismo é tudo o que não conheço. Tudo o que eu não sei, seja a que nível for, é profundamente romântico. A descoberta do desconhecido, seja uma pessoa, ou um país ou um livro, é o que há de mais romântico para mim.
“Esta peça é, em tudo, diferente, e confesso que gosto disso.”
– A peça que acaba de estrear, Cartas de Amor, será, pois, duplamente romântica, pelo tema e por lhe ser desconhecida?
– Esta peça é, em tudo, diferente, e confesso que gosto disso. Primeiro, porque a Maria Elisa tirou o curso no conservatório, é atriz, mas praticamente nunca exerceu, e isso em si já é excitante. Depois, porque o autor da peça [A. R. Gurney] exige que os atores não decorem os textos. São cartas que devem ser lidas, coisa que também nunca fiz. O que os atores fazem é decorar textos e interpretá-los. Aqui há, obviamente, uma interpretação, mas não se pode decorar o texto, é um processo completamente diferente. Este espetáculo representa, pois, dois desafios inesperados: não saber o texto e contracenar com uma colega que praticamente só representou no conservatório.
