O agronegócio que antes era associado sobretudo à força física hoje passa por máquinas conectadas, dados, planeamento e decisões estratégicas. É neste cenário que Juliane Veiga da Fonseca, advogada com atuação no Direito do Agronegócio, observa uma mudança que vai além da tecnologia: a entrada cada vez mais consistente das mulheres num setor historicamente masculino.
Natural de Apucarana, no norte do Paraná, no Brasil, Juliane cresceu próxima do campo e transformou essa vivência em parte da sua atuação profissional. Hoje, trabalha especialmente com produtores e famílias ligadas à cadeia da soja, unindo técnica jurídica, conhecimento do meio rural e atenção às transformações da agricultura.
Direito do Agronegócio e planeamento no campo
Formada em Direito, com especialização em Direito Empresarial, pós-graduação em Direito do Agronegócio e estudos voltados à Justiça Desportiva, Juliane actua desde 2012. No agro, o seu trabalho envolve crédito rural, contratos agrícolas, renegociação de dívidas, questões de direito do trabalho, organização patrimonial e sucessão familiar.
Para ela, trabalhar com produtores rurais exige compreender a lógica da safra, os riscos climáticos, as relações familiares e a responsabilidade de quem depende directamente da terra. Por isso, contratos, garantias, prazos e possibilidades de renegociação precisam de ser analisados antes da crise.
“O produtor pode fazer tudo bem e, ainda assim, enfrentar uma safra difícil. A chuva não pergunta quando vence a parcela do banco. Por isso, o planeamento jurídico precisa de caminhar junto com o planeamento da produção.”
Em muitas regiões, ainda existe a cultura dos acordos informais, baseados na confiança. Para Juliane, essa tradição tem valor, mas não substitui a protecção documental.
“Os acordos informais têm valor na cultura do campo, mas também trazem riscos. O Direito não entra para desconfiar das pessoas. Entra para proteger o que foi combinado e evitar que uma relação de confiança se transforme em conflito.”

Agricultura digital e protagonismo feminino
Um dos temas centrais da atuação de Juliane é o protagonismo feminino no agronegócio. A sua leitura parte de uma constatação clara: a agricultura digital abriu novas portas para a presença feminina no campo.
Se antes parte do trabalho rural era associada à força braçal, hoje a produção envolve gestão, tecnologia, dados, planeamento, compra de insumos, análise de solo, monitorização de plantações, máquinas conectadas, drones e inteligência artificial.
“A tecnologia tirou do agro a ideia de que determinados espaços pertencem apenas aos homens. Hoje, competência, preparação e gestão fazem mais diferença do que força física, pois conhecimento não tem género.”
Juliane não acredita que existam áreas naturalmente femininas ou masculinas dentro do campo. Para ela, mulheres podem actuar na administração da fazenda, na liderança de equipas, na sucessão familiar, na operação de tecnologias ou na negociação de contratos.
“Não vejo uma área específica para a mulher dentro do agro. Vejo mulheres capazes de ocupar qualquer espaço, desde que tenham formação, oportunidade e confiança para assumir decisões.”
Apesar dos avanços, a presença feminina ainda enfrenta resistências. Em regiões do interior, a mulher muitas vezes precisa de provar a sua competência com mais intensidade em reuniões, negociações e ambientes tradicionalmente masculinos.
“A impressão é que a mulher não pode errar. Em muitas negociações, ela ainda precisa de mostrar que entende do assunto antes de ser respeitada. Isso não deveria acontecer, mas ainda acontece.”
Para a advogada, essa mudança depende de educação e deve envolver homens e mulheres. “A transformação começa no berço. Não adianta cobrar igualdade no mercado se dentro de casa ainda se ensina que o menino pode tudo e a menina deve servir.”

Sucessão familiar e novas lideranças
A sucessão familiar também ganha importância neste debate. Com cada vez mais mulheres a herdarem, administrarem ou participarem nas decisões de propriedades rurais, filhas, esposas e netas de produtores deixam de ocupar papéis secundários e passam a actuar directamente na gestão dos negócios.
Para Juliane, esse movimento exige preparo jurídico. Planeamento sucessório, organização patrimonial e definição de responsabilidades ajudam a evitar conflitos e protegem a continuidade da actividade rural.
“A sucessão não pode ser discutida apenas quando o problema aparece. Planear a passagem de uma propriedade ou de uma empresa rural é proteger a história construída por uma família inteira.”
Um agro menos simplificado
Juliane defende que a sociedade compreenda o agronegócio com mais profundidade. Segundo ela, há discursos simplificados sobre sustentabilidade, produtos agroquímicos e preservação ambiental. A advogada reconhece que existem problemas, como em qualquer área, mas considera injusto tratar o produtor rural como vilão de forma generalizada.
“O agro não é um bloco único. Existem pessoas sérias, que preservam, investem em tecnologia e têm orgulho da própria produção. Quem vive da terra sabe que precisa de cuidar dela para continuar a produzir.”
Na visão da advogada, tecnologia, sustentabilidade e segurança jurídica precisam de caminhar juntas. Nesse contexto, o Direito do Agronegócio deixa de ser apenas uma resposta a conflitos e passa a integrar a estratégia de continuidade das propriedades e empresas rurais.

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