O Dia da Mãe costuma ser marcado por celebrações, encontros e memórias felizes. Mas, para muitas mulheres, a data traz também silêncio, ausência e uma dor difícil de traduzir. É nesse espaço — menos falado, mas profundamente real — que a voz de Zulmira Garrido (64), ganha um novo significado.
Ao longo dos últimos anos, o público habituou-se à sua frontalidade enquanto comentadora na SIC Caras. Porém, por detrás da mulher firme que comenta a vida dos outros, existe hoje uma realidade mais silenciosa e profundamente transformadora.
“A perda do meu filho, o Eduardo, em 2022, mudou completamente a minha vida. Nada volta a ser como antes.” A frase surge sem dramatização, mas com a lucidez de quem atravessou o irreparável. Zulmira descreve o momento atual como um lugar de reconstrução, onde o essencial assume um novo peso e tudo o que é superficial deixa de fazer sentido. “Hoje, só permanece o que é verdadeiro.”
Eduardo Ferreira, filho de Zulmira Garrido e conhecido como DJ Eddie Ferrer, morreu aos 42 anos, em novembro de 2022, após se ter sentido mal durante uma viagem para o Qatar, onde tinha atuações previstas no contexto do Mundial de Futebol. O episódio ocorreu durante uma escala em Istambul, na Turquia, onde acabou por ser assistido, não resistindo posteriormente às complicações de saúde.

Quando o Dia da Mãe também dói
Datas como o Dia da Mãe não lhe são indiferentes. Intensificam memórias, reabrem silêncios e tornam mais evidente aquilo que o tempo não apaga. Zulmira não romantiza esse momento, mas também não o evita.
Se há uma ideia que atravessa toda a entrevista, é a desconstrução de uma expectativa social ainda muito presente: a de que o luto tem um fim. Vive-o como parte de um amor que não terminou. “Não há um ‘depois’ no sentido de ultrapassar. Há um antes e um depois na vida, mas o amor e a dor permanecem para sempre.” A maternidade, no seu caso, não terminou com a ausência — transformou-se. “Sou mãe do Eduardo todos os dias.”
É nessa permanência do amor que encontra a força para continuar — não como superação, mas como adaptação a uma nova forma de existir. Para Zulmira, a perda não trouxe apenas ausência. Trouxe também revelações profundas. “Fez uma seleção muito clara das pessoas.”
A dor trouxe-lhe uma clareza exigente — e definitiva — sobre as relações. Percebeu que nem todos estão preparados para permanecer quando a vida deixa de ser leve. Após 33 anos de casamento, foi precisamente no momento mais difícil que sentiu a ausência de quem a acompanhou durante grande parte da vida. “Isso magoa, mas também ensina muito”, admite. Hoje, com outra consciência, valoriza sobretudo quem fica — sobretudo quando tudo o resto se desmorona.

Para as mães que aprendem a viver com a ausência
Num contexto em que muitas histórias permanecem no silêncio, Zulmira opta por partilhar — não como exposição, mas como forma de acolhimento. “Se puder ajudar alguém a sentir-se menos sozinha, então essa partilha já faz sentido.” E sublinha: “A dor não desaparece, mas pode tornar-se mais suportável quando é compreendida.”
Deixa ainda uma mensagem direta a outras mães que vivem o luto: “Não há forma certa de viver o luto. Que respeite o seu tempo e a sua dor. E que não se sinta pressionada a parecer forte. Respeite o seu tempo e a sua dor.”
À porta de mais um aniversário, que celebra em junho, Zulmira não fala em recomeços precipitados, mas em continuidade interior. O que deseja é simples e, por isso mesmo, essencial: paz. Um caminho sereno de reencontro consigo própria, onde o amor que nunca desaparece se mantém como presença constante. Sem pressa de reconstruir a vida amorosa, encontra-se hoje num lugar de equilíbrio e verdade — mais inteira, mais consciente e profundamente fiel a si mesma.
Neste Dia da Mãe, entre flores e celebrações, há também histórias que pedem outro tipo de espaço: o da escuta, do respeito e da compreensão. E talvez seja nesse lugar que a mensagem de Zulmira Garrido encontra o seu maior sentido. Porque há amores que não cabem em datas — mas continuam a existir, todos os dias.
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