Aos 60 anos e com quatro décadas de carreira, Daniela Mercury continua a recusar a ideia de que a experiência elimina o deslumbramento. A meio da Cirandaia EuroTour 2026, que já passou por Portugal, Espanha, Alemanha, Países Baixos e Reino Unido e termina em agosto com uma nova série de concertos em território português, a artista fala à CARAS Portugal da força das raízes, da arte como forma de resistência e da serenidade que encontrou sem nunca perder a urgência de subir ao palco.
Há artistas que chegam a uma determinada fase da carreira confortáveis com aquilo que já conquistaram. Daniela Mercury parece fazer precisamente o caminho contrário. Continua a olhar para cada concerto como um território desconhecido, um espaço onde tudo pode voltar a acontecer. “Faço cada espetáculo como se fosse o primeiro da minha vida.”
A frase surge sem qualquer intenção de efeito, quase como uma constatação. Mas basta escutá-la para perceber que talvez seja esse o segredo da longevidade de uma artista que nunca deixou de desafiar convenções. Depois de mais de quatro décadas de carreira, Daniela continua a subir ao palco com a mesma inquietação que a acompanhava no início, recusando que a experiência substitua o espanto.

Uma artista que nunca deixou de recomeçar
É com esse espírito que percorre atualmente a Europa com a Cirandaia EuroTour 2026, uma digressão que atravessa vários países e regressa a Portugal durante o mês de agosto para os últimos concertos do percurso europeu. O nome não foi escolhido por acaso. Cirandaia remete para a ideia de roda, de encontro e de pertença. E é precisamente essa experiência que Daniela procura criar em cada espetáculo.
“Durante o espetáculo estamos todos interligados pela música. Ela faz parte da minha vida, mas também da vida de tantas pessoas. Gosto dessa ligação que nasce da língua e do afeto“, afirma.
Ao contrário do que seria expectável numa celebração de 40 anos de carreira, Cirandaia não vive da nostalgia. Revisita clássicos como Bandeira Flor, À Primeira Vista, Rapunzel e Nobre Vagabundo, assinalando também os 30 anos do álbum Feijão com Arroz, mas sem transformar o passado num lugar de conforto. O espetáculo presta homenagem à força das mulheres, lança um alerta para a proteção do clima, reflete sobre o impacto da inteligência artificial e celebra a capacidade da música para dialogar com o presente.
Essa necessidade de permanecer em movimento nasce de uma convicção antiga: a inovação nunca existe sem memória. “Sem tradição perdemos a memória. Só existe inovação porque existe tradição“, afirma, recordando Dona Canô, tema incluído no álbum Feijão com Arroz, onde canta: “Antiguidade é posto, temos que respeitar.” Para Daniela, aquilo que recebeu das gerações anteriores nunca foi um peso, mas antes o ponto de partida para construir uma linguagem artística própria. “Sou uma artista sempre em movimento, por fora e por dentro”, completa.
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As raízes como ponto de partida para inovar
Essa mesma consciência acompanha-a quando fala da cultura afro-brasileira. Num momento em que volta a apresentar esse património em várias cidades europeias, acredita que a música continua a ser uma forma de resistência e de afirmação identitária.
“Venho de um país colonizado e faço uma música que conta essa história através da resistência brasileira, negra e feminina. Estar na Europa enquanto brasileira, cantando e valorizando a cultura afro-brasileira, continua a ser muito profundo“, confessa.
Quando fala da sua identidade artística, Daniela Mercury acaba inevitavelmente por regressar a O Canto da Cidade. A canção, continua a ser aquela em que melhor se revê. “É uma canção que me identifica esteticamente e que traz uma mensagem forte sobre o meu povo“, afirma. O tema, acrescenta, mantém um arranjo intemporal, que cruza rock e samba-reggae, e permanece vivo na memória de quem acompanha o seu percurso, ao mesmo tempo que conquista novos públicos.
Mas talvez a maior surpresa desta conversa esteja longe dos palcos. Ao longo da entrevista, Daniela fala várias vezes da família. Não como um refúgio da vida artística, mas como parte essencial dela. Quando regressa a casa depois de uma digressão, não separa a mulher da artista. “A artista, a mãe, a filha e a esposa são a mesma pessoa.”
Ao seu lado está sempre Malu Verçosa (49), com quem partilha também a estrada. Daniela diz sentir-se acompanhada, cuidada e rodeada por uma equipa “muito gentil e amorosa“, fazendo da vida em digressão uma extensão da vida em família.
É na Bahia que escolhe viver precisamente para permanecer perto de quem ama. E, quando imagina um dia perfeito, não fala de grandes acontecimentos. Fala de um pequeno-almoço partilhado com a mulher, Malu, os filhos, as netas e os pais, enquanto contempla o mar pela janela.
Quando regressa de uma digressão, diz chegar “de alma lavada pelos momentos mágicos vividos no palco“. Mas é em casa que essas emoções ganham outro significado. Conta tudo o que viveu aos pais, aos filhos, às netas e aos amigos, celebrando cada conquista com quem sempre fez parte do seu percurso. “Eles são parte de tudo o que sou. Esse amor é que faz a minha vida valer a pena.”
É na Bahia que escolhe viver precisamente para permanecer perto de quem ama. E, quando imagina um dia perfeito, não fala de grandes acontecimentos. Fala de um pequeno-almoço partilhado com a mulher, Malu Verçosa, os filhos, as netas e os pais, enquanto contempla o mar pela janela.

Portugal faz parte da mulher que é hoje
Essa ideia de pertença atravessa também a relação que mantém com Portugal. Filha de um homem nascido em Braga, Daniela admite que, com o passar dos anos, foi descobrindo cada vez mais traços da família portuguesa na própria personalidade.
“Hoje vejo quanto me pareço com o meu pai, com as minhas tias e com os meus avós portugueses. Tenho uma densidade e até uma melancolia poética que também vêm daí.”
Talvez seja por isso que regressar a Portugal nunca represente apenas mais uma etapa da digressão. Existe sempre um reencontro íntimo com uma parte da sua identidade.
Mesmo depois de milhares de concertos, Daniela Mercury admite que continua a sentir um receio antes de subir ao palco. O medo é outro. “Tenho medo de não conseguir dançar. A dança é a minha vida, tanto quanto o canto.”
É uma resposta reveladora para quem sempre fez do corpo uma extensão da própria música. Talvez explique porque continua a viver cada espetáculo como um acontecimento irrepetível.
Quando a Cirandaia EuroTour terminar e as luzes se apagarem, Daniela espera que o público leve consigo mais do que as canções. Gostaria que permanecesse a imagem de uma artista comprometida com o seu tempo, defensora dos direitos humanos, da democracia, da proteção da natureza e da igualdade entre os povos.
No entanto, ao longo desta conversa, fica a sensação de que o verdadeiro legado de Daniela Mercury talvez seja outro: provar que uma carreira de quatro décadas não se mede pela distância percorrida, mas pela capacidade de continuar a recomeçar.
Como se cada concerto fosse, afinal, o primeiro.
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