O mundo da cultura e da literatura está de luto. A escritora, ilustradora e cineasta franco-iraniana Marjane Satrapi (1969-2026) morreu esta quinta-feira, 4 de junho, em Paris, aos 56 anos. A notícia foi avançada pela família e amigos mais próximos através de um comunicado comovente, que revela que a artista “morreu de desgosto, pouco mais de um ano após a morte de Mattias Ripa, o marido e o amor da sua vida”, falecido em abril de 2025.
Satrapi inscreveu o seu nome na história da literatura e das artes ao tornar-se a primeira mulher iraniana a escrever uma banda desenhada (história em quadrinhos). Alcançou a consagração e a projeção mundial com a novela gráfica autobiográfica ‘Persepolis’, uma obra aclamada pela crítica que retrata a sua infância e juventude na transição para o regime teocrático no Irão.
Uma vida marcada pelo exílio e pela coragem
Nascida em Rasht, no Irão, em 1969, Marjane Satrapi cresceu em Teerão no seio de uma família com fortes ligações aos movimentos socialistas e comunistas. Durante a infância, testemunhou a queda do Xá, a ascensão do regime islâmico de Ruhollah Khomeini (1902-1989) e os horrores da Guerra Irão-Iraque.
Perante a crescente repressão das liberdades civis, os pais enviaram-na para a Europa em 1983, quando tinha apenas 14 anos. Fixou-se em Viena, na Áustria, onde viveu um período conturbado, chegando a ficar desabrigada após passar por vários pensionatos. Depois de sobreviver a uma pneumonia grave, regressou temporariamente ao Irão, onde se licenciou e obteve o mestrado em Comunicação Visual pela Universidade Islâmica Azad.
Em 1994, trocou definitivamente o Irão pela França, estabelecendo-se em Paris, cidade onde desenvolveu a sua carreira como ilustradora e autora de livros infantis.

O fenómeno de ‘Persepolis’ e o feito histórico nos Óscares
Publicada no início dos anos 2000, aBD ‘Persepolis’ tornou-se um fenómeno global. Em 2007, Satrapi codirigiu com Vincent Paronnaud (56) a adaptação da obra para um filme de animação de longa-metragem que estreou no Festival de Cinema de Cannes, onde arrecadou o Prémio do Júri.
Mais tarde, fez história ao ser nomeada para o Óscar de Melhor Filme de Animação, tornando-se a primeira mulher a receber uma nomeação nesta categoria. A fita foi ainda a escolha da França para concorrer à categoria de Melhor Filme Internacional na 80.ª edição dos Prémios da Academia.
Ao longo do seu percurso multifacetado, realizou também a comédia de terror ‘The Voices’ (protagonizada por Ryan Reynolds) e ‘Radioactive’ (2019), a biografia cinematográfica de Marie Curie (1867-1934). No panorama musical, assinou a arte do álbum ‘Préliminaires‘, do cantor norte-americano Iggy Pop (79).
Voz ativa contra a opressão
Satrapi manteve-se sempre como uma voz acérrima e frontal na crítica ao regime teocrático iraniano. Em 2022, manifestou publicamente o seu apoio aos protestos gerados pela morte da jovem Mahsa Amini (1999-2022), classificando o movimento “Mulher, Vida, Liberdade” como uma verdadeira revolução cultural. Esse ideal serviu de mote para a sua última banda desenhada, intitulada precisamente ‘Woman, Life, Freedom‘, publicada em 2024.
O seu espírito rebelde e íntegro ficou igualmente demonstrado em 2025, quando recusou receber a prestigiada Legião de Honra francesa, justificando a decisão com a “hipocrisia” que, na sua visão, pautava as relações diplomáticas entre a França e o Irão.
A morte de Marjane Satrapi encerra o capítulo de uma das artistas mais corajosas e originais do nosso tempo, cuja obra continuará a ser um farol na luta pela liberdade e pelos direitos humanos.
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