O- corpo do realizador, argumentista e cineasta baiano Ricardo Spencer (1976-2026) foi encontrado por colegas de trabalho na última segunda-feira (20), em São Paulo, depois de o artista ter faltado a uma reunião de trabalho. O criador tinha 49 anos.
A informação foi avançada aos jornalistas do G1 por familiares. O encontro cancelado servia para preparar a nova série que Spencer estava a produzir na capital paulista para uma plataforma de streaming. Na noite anterior, o cineasta também não tinha ido buscar uma encomenda feita através de uma aplicação de entregas. A refeição ficou na portaria do prédio onde residia há pouco tempo, no centro de São Paulo. Por
esta razão, os familiares acreditam que o artista possa ter falecido ainda na noite de domingo (19). Em comunicado, a família sublinhou que a morte ocorreu por causas naturais.
Investigação policial
A Polícia Civil descartou, numa fase inicial, as hipóteses de suicídio e de crime violento, uma vez que o corpo não apresentava quaisquer marcas de violência. No entanto, a ocorrência foi registada como morte suspeita, não tendo a corporação especificado os motivos exatos para essa classificação imediata.
Para a família, o caso gerou estranheza pelo facto de Spencer estar sozinho no momento do óbito. Segundo a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, o corpo foi descoberto no chão do apartamento, depois de o porteiro ter contactado a administração do edifício.
Após a perícia efetuada no local, o corpo foi transladado para o Instituto Médico Legal (IML), onde será submetido a exames toxicológicos e anatomopatológicos para confirmar a causa exata da morte, cujos resultados deverão ser conhecidos nos próximos dias.
Os familiares ainda não divulgaram os detalhes relativos às cerimónias fúnebres, mas confirmaram que o corpo será cremado em São Paulo. Antes de se fixar na metrópole paulista, o baiano tinha vivido durante uma década no Rio de Janeiro.
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Um percurso marcado pelas artes e pelo audiovisual
Natural de Salvador, Ricardo Spencer era neto da célebre atriz e diretora Nilda Spencer (1923-2008), considerada a “dama do teatro baiano”. Formado em Artes, especializou-se em Estética do Cinema na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), nos Estados Unidos. Ao longo de mais de duas décadas de carreira, construiu um trajeto sólido e reconhecido na realização e na escrita de argumentos.
Crescido num ambiente profundamente artístico devido à influência da avó — que participou em cerca de 70 peças ao longo de cinco décadas —, Spencer desenvolveu desde muito cedo o gosto pelo cinema através das visitas frequentes a locadoras de vídeo.
Antes de se afirmar na dramaturgia televisiva, o cineasta ganhou forte projeção na direção de videoclipes musicais para artistas nacionais e internacionais. Colaborou com nomes como Rita Lee (1947-2023), Pitty (48), Criolo (50), Sandy (43), Emicida (40), Johnny Hooker (38), Liniker (31), os grupos Cachorro Grande e Vanguart, além da cantora norueguesa Aurora (30) e da banda norte-americana Sebadoh, conquistando prémios de relevo em canais como a MTV e o Multishow.
Trabalho de destaque na televisão
Na última década, integrou a equipa de realização da TV Globo. Entre os projetos de maior destaque que liderou encontram-se as séries “Mister Brau”, “Shippados”, “Segunda Chamada”, “Todas as Mulheres do Mundo”, “Amor e Sorte”, “Cine Holliúdy” e “Vermelho Sangue”, além de ter colaborado na telenovela “Segundo Sol”, ambientada na Bahia. A trama de Beto Falcão (Emílio Dantas) foi transmitida pela SIC entre 2018 e 2019.
O seu trabalho em “Segunda Chamada” valeu-lhe o prémio de melhor série do ano atribuído pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) em 2020, culminando também com uma prestigiada nomeação para os International Emmy Awards de 2021 na categoria de melhor série dramática.