O momento em que precisou de segurança para conseguir sair do pavilhão após o Mundial de 2024 mudou algo dentro de Madalena Costa. Habituada à pressão das pistas e à exigência das competições internacionais, foi ali, perante dezenas de crianças à espera de fotografias e autógrafos, que a jovem atleta percebeu verdadeiramente a dimensão do seu percurso. “Foi aí que caiu a ficha”, recorda em entrevista exclusiva à Caras Portugal.
A cena permanece viva na memória da patinadora. Meninas emocionadas, fãs a chamarem pelo seu nome e uma admiração que, até então, parecia distante da realidade de uma adolescente de apenas 17 anos. “Um dia fui também aquela menina que pedia fotografias e autógrafos aos seus ídolos”, afirma, num tom que mistura maturidade e sensibilidade.
Esta nova etapa da carreira trouxe títulos, recordes inéditos e reconhecimento internacional, mas também uma responsabilidade silenciosa: tornar-se um exemplo para jovens atletas que hoje veem nela a prova de que sonhos aparentemente impossíveis podem transformar-se em realidade.
Apesar da crescente exposição mediática, Madalena mantém uma postura discreta e uma consciência muito clara do caminho percorrido até aqui. Filha de treinadora, cresceu entre pavilhões, treinos e competições. Curiosamente, a mãe não queria que seguisse a modalidade a nível profissional. No entanto, bastou experimentar os patins ainda em criança para tudo mudar. “Comecei a tentar fazer algumas coisas e acabei por convencê-la a deixar-me patinar”, recorda, ao falar dos primeiros passos no desporto que viria a transformar a sua vida.

O lado invisível da alta competição
Por detrás das medalhas e das apresentações irrepreensíveis existe uma rotina marcada pela disciplina e pelas renúncias. Enquanto muitos jovens da mesma idade dividem o tempo entre festas, férias e fins de semana despreocupados, Madalena habituou-se a trocar momentos típicos da adolescência por estágios, treinos intensivos e competições.
Ainda assim, evita olhar para esse percurso com amargura. Pelo contrário. Há uma serenidade impressionante na forma como encara as escolhas que teve de fazer. “Se quero alcançar algo que mais ninguém alcança, não posso fazer aquilo que todos fazem”, afirma.
A frase resume não apenas a atleta, mas também a mentalidade de alguém que aprendeu cedo o significado de responsabilidade, foco e resistência emocional. Porque, mesmo depois de títulos históricos e anos de experiência, o nervosismo continua presente antes de entrar em pista. Madalena admite que o medo surge sempre antes das provas — sobretudo quando compete na condição de favorita. “Tudo pode acontecer naqueles três ou quatro minutos”, explica.

Entre os sonhos e a vida fora da pista
Nos instantes que antecedem as apresentações, procura proteger-se emocionalmente. Ouve música, revê mentalmente as coreografias e leva consigo um pequeno amuleto: um peluche inspirado no seu cão, Gold.
Fora das pistas, revela um lado mais leve e criativo. Gosta de ler, escrever, dançar e passar tempo com a família e os amigos. Talvez seja precisamente esse equilíbrio entre disciplina e sensibilidade que torna a sua história tão inspiradora.
Apesar da juventude, Madalena já pensa no futuro para lá das competições. Sonha publicar um livro, criar uma escola de patinagem, tornar-se treinadora, coreógrafa e psicóloga do desporto. Mais do que continuar a vencer, quer contribuir para o crescimento da modalidade e abrir caminho às novas gerações.
Quando olha para o próprio percurso, sabe exatamente como gostaria de ser recordada: “Como uma atleta histórica que impulsionou a modalidade.”
E, ao que tudo indica, esse legado já começou.
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