Uma consulta pode mudar a forma como alguém entende o próprio corpo. Para a ginecologista brasileira Alini Cunha, esse momento aconteceu ainda na adolescência, quando a primeira menstruação a levou ao consultório de uma médica que explicou, com clareza e acolhimento, uma fase cercada de dúvidas. A jovem saiu de lá com uma certeza rara para a idade: queria cuidar de mulheres.
Nascida em Carazinho, no interior do Rio Grande do Sul, Alini de Paula Severo da Cunha não provém de uma família de médicos. Cresceu a acompanhar o esforço dos pais, que tinham formação de nível médio, para oferecer às filhas acesso ao estudo. A escolha pela medicina nasceu de uma experiência íntima, ligada à descoberta do corpo feminino e à força de uma orientação bem conduzida.
“Aquela consulta mudou a forma como eu entendia o meu corpo. Não saí de lá apenas a querer ser médica. Saí a querer atender mulheres, explicar, acolher e fazer com que outras raparigas também se sentissem seguras diante das próprias mudanças”, relembra.
A decisão atravessou a adolescência, os anos de preparação para os exames de acesso ao ensino superior e a formação em Medicina pela Universidade de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Mais tarde, em Porto Alegre, Alini concluiu a especialidade em Ginecologia e Obstetrícia, com pós-graduações em Ginecologia Regenerativa e em Ginecologia da Infância e Adolescência, consolidando a sua atuação no cuidado à saúde feminina.

O recomeço em Portugal
A mudança para Portugal surgiu de um desejo antigo de viver uma experiência fora do Brasil. A possibilidade ganhou força quando a médica começou a conversar com um colega ginecologista que já exercia no país. O plano, porém, exigiu preparação técnica e emocional. Para exercer a medicina em território português, precisou de revalidar o diploma e, posteriormente, a especialidade.
Durante a pandemia, transformou o período de restrições numa rotina de estudo. Acordava cedo para rever áreas que não faziam parte da sua prática diária havia anos, como pediatria, clínica geral, cirurgia e neurologia. Passou por etapas teóricas, práticas e avaliação curricular até obter a validação necessária.
A travessia envolveu também os filhos, a distância da família e a reconstrução de uma vida já estruturada no Brasil. O desafio não estava apenas nos documentos ou nas provas, mas na necessidade de começar de novo.
“O mais difícil foi recomeçar. Eu já tinha uma história construída, uma rotina, pacientes, família por perto. Quando a mudança envolve filhos, a preocupação com a adaptação deles vem antes das próprias angústias. Foi uma reinvenção para todos nós”, reflete.
Hoje, a ginecologista atende presencialmente em Lisboa e também realiza consultas online para mulheres que vivem em diferentes países da União Europeia e no Brasil. A expressão “ginecologista brasileira”, adotada na sua comunicação, surgiu como forma de aproximação com pacientes que procuravam atendimento em português e identificação cultural.
A escuta como parte do cuidado
Atuar entre Brasil e Portugal ampliou o olhar de Alini sobre a saúde feminina. Observa diferenças culturais no acesso ao sistema de saúde, especialmente pela presença do médico de família em Portugal. Ainda assim, reconhece que medos, dúvidas e inseguranças atravessam fronteiras.
No consultório, aparecem temas que muitas pacientes ainda têm dificuldade em verbalizar: dor na relação sexual, alterações de libido, corrimento, ciclos menstruais, gestação, menopausa, sexualidade e sintomas urinários. Algumas mulheres chegam com incómodos normalizados por anos. Outras precisam de tempo até dizer o que realmente as preocupa.
“A nacionalidade muda, mas a mulher quer ser entendida. Deseja um espaço onde possa falar sem julgamento, seja sobre dor, desejo, sangramento, maternidade ou envelhecimento. Antes de qualquer conduta, é preciso criar confiança”, comenta.
Para a médica, a consulta ginecológica precisa de alcançar também aquilo que a paciente ainda não consegue nomear. Às vezes, uma queixa importante aparece apenas no fim do atendimento. Noutras situações, surge somente no retorno, quando o vínculo permite uma conversa mais aberta.
“Muitas mulheres foram ensinadas a suportar desconfortos. Dor na relação, noites mal dormidas, cólicas incapacitantes ou sintomas íntimos persistentes não devem ser tratados como parte inevitável da vida. Quando a mulher entende que pode falar, o cuidado torna-se mais honesto”, afirma.
A mulher em cada fase
A ginecologia acompanha momentos decisivos da vida feminina. Na adolescência, surgem dúvidas sobre menstruação, cólicas, corpo, sexualidade e identidade. Na gravidez, aparecem expectativas, medos e mudanças intensas. Depois dos 40, muitas mulheres começam a lidar com alterações no sono, no humor, na memória, na libido e na saúde íntima.
Atualmente, Alini dedica parte importante da atuação ao cuidado de mulheres 40+, com foco em perimenopausa, menopausa, terapia hormonal, saúde íntima e ginecologia regenerativa. A escolha acompanha uma procura crescente: pacientes que não querem mais normalizar sintomas que comprometem a rotina, a autoestima e os relacionamentos.
A médica explica que a menopausa não se resume aos afrontamentos. A transição hormonal pode interferir no sono, na disposição, no peso, na memória, na lubrificação, no trato urinário e na forma como a mulher se reconhece.
“Algumas pacientes chegam a dizer que não se sentem elas mesmas. O corpo muda, o sono piora, a memória falha, a relação sexual pode tornar-se dolorosa. O papel da ginecologia é organizar essas queixas, investigar causas e construir um caminho seguro para cada mulher”, explica.
Menopausa, escolhas e segurança
Ao falar sobre terapia hormonal, Alini evita respostas prontas. A conduta depende de avaliação individual, histórico clínico, idade, sintomas, tempo desde a menopausa e possíveis contraindicações. Para algumas pacientes, o tratamento pode trazer benefícios. Para outras, não será a melhor opção.
A ginecologista também alerta para a procura por soluções rápidas, especialmente num período em que as redes sociais ampliam o acesso à informação, mas também favorecem promessas sem critério. O uso de hormonas exige indicação clínica, dose correta e acompanhamento médico regular. “A menopausa não deve ser conduzida com fórmulas mágicas. O cuidado precisa de ser construído passo a passo, com exames, escuta, ajuste de condutas e respeito pela segurança. Tudo o que promete resultado fácil demais merece atenção”, ressalta.
Na ginecologia regenerativa, a médica adota uma postura semelhante. Prefere olhar para a área pelo aspeto funcional, não como tendência estética. Em casos selecionados, recursos como fisioterapia pélvica, tratamentos locais, laser e ultrassom podem ser avaliados para queixas como dor na relação, vaginismo, secura vaginal, desconfortos íntimos e incontinência urinária leve.
“Quando uma mulher deixa de ter relação por dor, evita atividades por desconforto ou convive com perda urinária, a questão não é vaidade. É qualidade de vida. Ainda assim, cada indicação precisa de partir de exame, história clínica e expectativas realistas”, pontua.

Tecnologia e vínculo
As teleconsultas tornaram-se parte da rotina de Alini e permitem orientar mulheres que vivem fora de Portugal, muitas delas brasileiras e portuguesas espalhadas pela Europa. Nalgumas situações, o atendimento online ajuda a avaliar exames, esclarecer sintomas e direcionar condutas iniciais. Noutras, o exame físico continua a ser indispensável.
Para a ginecologista, a tecnologia amplia o acesso, mas não substitui a relação entre profissional e paciente. O mesmo vale para as redes sociais e para ferramentas de inteligência artificial. Podem ajudar a mulher a procurar informação, desde que não ocupem o lugar de uma avaliação individualizada.
Reservada diante das câmaras, Alini reconhece que a comunicação médica se tornou parte do cuidado. Informar com clareza, para ela, é uma forma de reduzir o medo e estimular a autonomia.
“Informação de qualidade ajuda a mulher a reconhecer sinais e a procurar atendimento. Mas saúde não pode ser simplificada a ponto de virar diagnóstico pronto. Cada corpo tem uma história, e essa história precisa de ser escutada”, afirma.
O futuro do cuidado feminino
A trajetória de Alini Cunha reúne origem, estudo, mudança e recomeço. Da jovem que descobriu a ginecologia numa consulta à médica que revalidou a carreira noutro país, a sua prática preserva uma mesma linha: cuidar da mulher exige técnica, mas também presença.
Para os próximos anos, pretende ampliar o atendimento a mulheres em diferentes fases da vida, especialmente aquelas que atravessam a maturidade e buscam respostas para sintomas que por muito tempo foram minimizados. Também deseja fortalecer a comunicação em saúde para chegar a pacientes que vivem longe do país de origem e sentem falta de acolhimento.
No consultório, a médica diz que ainda se emociona quando uma paciente sai melhor do que entrou. Nem sempre isso significa sair com uma resposta definitiva. Às vezes, significa ter sido ouvida com atenção.
“Se a mulher não se sente acolhida, não deve desistir de procurar cuidado. Em algum lugar, haverá um profissional capaz de a ouvir com respeito. O mais importante é não se acomodar ao sofrimento e não desistir de si mesma”, conclui.
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