O mundo da alta gastronomia em Portugal foi abalado esta semana com a confirmação de que Ljubomir Stanisic (47), o carismático e irreverente chef de origem jugoslava, deixou oficialmente a gestão do Grupo 100 Maneiras. Após 17 anos à frente de um império que ajudou a redefinir a restauração lisboeta, o chef e os seus sócios de longa data, Nuno Faria (45) e Nelson Santos (53), passaram o testemunho ao grupo internacional Dhurba Subedi. A decisão marca o encerramento de um capítulo histórico que começou em Cascais e se tornou um símbolo de audácia culinária no coração do Chiado.
Contudo, este “adeus” não acontece num momento de glória, mas sim de profunda turbulência. O ponto de rutura terá sido a perda da Estrela Michelin no início de 2025, um golpe que afetou severamente a saúde financeira do grupo, resultando numa quebra de faturação na ordem dos 40%. A saída estratégica de Stanisic surge como a resposta final a um período de desgaste, onde o prestígio internacional deu lugar a uma luta pela sobrevivência num setor cada vez mais exigente e implacável.

O rasto de polémicas
O percurso recente de Ljubomir foi tudo menos tranquilo, assemelhando-se por vezes a um dos episódios dramáticos que protagonizou na televisão. Além do rombo financeiro causado pela despromoção no Guia Michelin — que o próprio atribuiu, em parte, às suas declarações polémicas sobre o valor das distinções gastronómicas —, o chef enfrentou uma sucessão de contrariedades. Em abril, um violento incêndio destruiu o Carnal Gastrobar, um dos seus projetos mais recentes, e na esfera judicial a pressão mantém-se elevada com um processo milionário movido pela TVI, que exige mais de 1,2 milhões de euros por quebra de contrato.
A par dos problemas financeiros e judiciais, a figura pública do chef continuou a ser alvo de escrutínio. Entre queixas na ERC por violência verbal e o histórico de declarações controversas sobre figuras do panorama nacional, Stanisic viveu um ano de autêntico “pesadelo” mediático. Apesar de ter sido ilibado de processos graves, como as acusações de assédio movidas por uma ex-concorrente do “Hell’s Kitchen”, o peso acumulado destas situações parece ter precipitado a necessidade de um afastamento definitivo da linha da frente dos seus negócios em Lisboa.
O pronunciamento do chef
Num comunicado carregado de emoção, que descreveu como uma “carta de amor”, Ljubomir Stanisic não escondeu a tristeza que acompanha esta despedida. “O 100 Maneiras é gente. Foi, antes de mais, o meu primeiro filho”, partilhou, sublinhando que este projeto foi a concretização de um sonho de juventude. O chef fez questão de destacar que, apesar da venda, sai com a consciência tranquila e o orgulho de ter construído algo único, admitindo que o processo de separação é doloroso e acompanhado por “lágrimas”, como qualquer desamarrar de um vínculo profundo.
Nesta mensagem de despedida, Stanisic deixou ainda uma nota sobre o futuro, indicando que este passo não é uma rendição, mas sim uma busca por “tempo” e por novos fôlegos. Sem revelar detalhes sobre os seus próximos passos profissionais, o chef garantiu que o seu legado continuará vivo nas mãos dos novos proprietários, enquanto ele se recolhe para processar o fim desta era, prometendo que a sua essência inquieta e a vontade de fazer a diferença na gastronomia nunca se apagarão.
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